Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Afonso Belo Castilho, Aluno do 1ºano da Licenciatura
Aquando da despromoção de Portugal da categoria “País Totalmente Democrático” para a categoria “Democracia com Falhas”, ressurgiu o debate da luta pela democracia e da preservação da mesma. Tendo em conta esta situação e depois de inúmeras conversas, algumas internas, outras com amigos, relembrei-me que, há dois séculos, houve uma pessoa que lutou contra a tirania e opressão de uma forma algo peculiar… Uma forma que me é muito querida.
Beethoven foi o primeiro que incendiou as salas de concerto da capital da cultura com as suas convicções ideológicas. Em 1804 estreava a sua Terceira Sinfonia, apelidada de Eroica. É uma sinfonia com uma história algo conturbada.
Inicialmente, Beethoven entendera dedicá-la a Napoleão Bonaparte, Primeiro Cônsul Francês – “Geschriben auf Bonaparte” (Escrita para Bonaparte). Bonaparte era um herói aos olhos dos Franceses e de todos os apoiantes da Revolução Liberal Francesa que havia começado em 1789. Assim, como adepto do liberalismo social que era, Ludwig também o venerava.
Aquando do término prático da obra, Napoleão Bonaparte autoproclama-se Imperador de França e dos Franceses. Aos olhos dos fiéis aos princípios impulsionadores da Revolução, esta tomada de posição iluminou as suas aspirações monárquicas e antidemocráticas, desmascarando Bonaparte como um homem sedento de poder sem qualquer respeito pelos ideais de Separação e Interdependência de Poderes, bem como o seu desprezo pela Igualdade e Fraternidade entre os Homens… Ao declarar-se Imperador, Napoleão colocou-se acima dos restantes e fez regredir a França ao sistema absolutista do qual tinha saído há cerca de uma década.
Isto enfureceu de tal modo Beethoven que, assim que teve conhecimento do sucedido, se dirigiu furiosamente ao manuscrito e riscou com uma faca o nome do Imperador dos Franceses da primeira página da sinfonia. A página foi riscada com tanto desprezo e desdém pelos acontecimentos associados que acabou rasgada, tendo de ser reconstruída a posteriori.
Aquando do acalmamento dos ânimos, o compositor deliberou que manter o elo filosófico associado a esta sua obra-prima era o mais acertado, pelo que a apelidou de “Sinfonia Eroica, composta para celebrar a memória de um Grande Homem”. Ainda hoje, historiadores se debatem sobre o verdadeiro significado desta descrição. A quem Beethoven dedicou então a sua sinfonia? Dedicou-a a Napoleão, Primeiro Cônsul de França? Dedicou-a aos Homens que lutaram pela concretização dos Ideais Liberais da Revolução? Ou será que a dedicou aos Ideais personificados? Ninguém sabe ao certo… Há apenas a certeza de que o seu percurso enquanto compositor sinfónico foi dedicado à efetivação e transmissão dos Ideais que lhe eram queridos.
Durante toda a sua vida, Ludwig van Beethoven transpareceu as suas convicções na música que compunha. As suas Terceira, Quinta, Sétima e Nona Sinfonias são prova viva disso… Prova viva de facto… Efetivamente, quando se ouve, ao vivo ou numa boa gravação, ou inclusive se toca uma sinfonia de Beethoven, é inaliável o sentimento que nos corre pelo corpo!... É como se estivéssemos a ter uma conversa com o próprio génio alemão… Tanta beldade nas suas “palavras” deixa-nos perplexos! Mas para além da beleza das ideias transmitidas, destaca-se a garra e tenacidade com que as defendeu… Chego a considerar que ele não teria tido problema nenhum em morrer por aquilo em que acreditava…
Fica assim uma pergunta para o leitor… Não deveríamos nós prezar e continuar a lutar pela democracia pela qual tantos bons homens e tantas boas mulheres lutaram e pereceram para conquistar? A minha resposta é “Sim!”. Aliás, devemos-lhes isso… Tal demanda é, inegavelmente, uma obrigação moral!
Edição: Rita Cavaco (Editora Executiva da ANA)
A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.